Agora que está finalizada (ou prestes) a reconstrução da Ponte do Sebastião, em Antas, conseguimos mais alguma informação (e conhecimento) desta muito conhecida ponte, sobretudo dos peregrinos que rumam a Santiago.

O texto é do Enf. Júlio Alves, proprietário da Azenha Branca, a quem agradecemos a gentileza de nos prestar estas informações bem como parte do registo fotográfico.


Antas, Esposende - Castelo do Neiva, Viana do Castelo

Antes de fazer uma resenha sobre as pontes e as cheias do rio Neiva em S. Paio de Antas, vamos fazer uma breve história das azenhas e moinhos e o seu rio.

As azenhas e os moinhos de rodízio remontam aos anos entre 120 e 63 antes de Cristo. A alusão mais antiga encontra-se num epigrama de Antipatros de Salónica: Cessai de moer ó mulheres que trabalhais no moinho... Cères ordenou às ninfas aquáticas que desempenhassem a vossa tarefa, e elas, obedientes às suas ordens, correm sobre a roda e fazem girar o eixo por meio das palas que o rodeiam e com ele, as pesadas mós.

Nos séculos X e XII, de todos os progressos técnicos realizados, o mais notável e espetacular será a expansão do moinho de água e a sua adaptação às várias indústrias: moagem, lagares de azeite, indústria do linho, serração…

O rio Neiva nasce na serra do Oural, Godinhaços, Vila Verde e em toda a sua extensão de cerca de 40 km, tinha inúmeras azenhas e engenhos, cerca de 150, 95 açudes e 38 pontes, sendo a Azenha Branca a terceira a contar da foz, sendo a segunda açude e a primeira ponte ou pontelha. Segundo rezam as memórias Paroquiais de 1758, o rio Neiva, nesta data, só era navegável apenas até ¼ de légua, pois daí para cima, tem nos limites desta freguesia, dez açudes de moendas, a que este povo chama de levadas vulgarmente (S. Paio de Antas, Sua História, Sua Gente, 1999).

Ponte do Sebastião e Azenha Branca, estão interligadas.

A Ponte do Sebastião faz parte dos trajetos traçados para os Caminhos de Santiago. Une dois concelhos, Esposende e Viana do Castelo e dois distritos, Braga e Viana do Castelo.

A ponte tem cerca de 40 metros de comprimento, 18 pilares de 1,50 metros de altura e aproximadamente 2,25 metros entre eles.

A Administração Geral dos Serviços Hidráulicos, Divisão do Douro, concedeu a licença (número 17) de construção em 11 de junho de 1930 a Francisco Martins Viana, da Quinta Velha dos Ferreiros, ou Ferreiros de Cima ou do Monte, quinta do século XIII. Foi apresentada planta de construção com quinze vãos, com largura média de 2,50 metros. A obra não poderia ultrapassar 90 dias. Por esta razão, ela foi construída antes de 11 de setembro de 1930.

inscrição em pedra
Data de construção (1930) , inscrição num dos pilares da Ponte do Sebastião

As pedras foram extraídas dos montes vizinhos e tinham de ser de boa qualidade afim de ficar com a devida segurança. O nome de Ponte do Sebastião, deve-se ao Moleiro com o mesmo nome, Sebastião Gonçalves Dias, natural de Castelo do Neiva, que residiu e laborou na azenha até 1956. Veio a falecer, ao salvar um neto de afogamento.

planta topográfica da ponte, com vista de corte longitudinal
Planta topográfica da Ponte do Sebastião

Em 18 de junho de 1956, iniciou novamente a moagem em nome de Manuel Martins Viana, inscrita na Secção de Cadastro e Estatística (Comissão Reguladora de Moagem de Rama), número 8.225. As mós ou os casais de mós tem um diâmetro de 1,30 metros. O último moleiro da azenha foi António Gonçalves Cardante que manteve a indústria da moagem de 03 de outubro de 1961 até 1973. Com a modernização industrial, os engenhos e as azenhas de moagem, do linho, da serração, de alambiques, de bombagem de água foram perdendo o seu vigor e a maior parte, deitadas ao abandono.

O Sr. Francisco e a esposa Ana Alves Rolo eram proprietários da Azenha Branca ou Azenha da Guilheta ou Azenha do sítio do Caçador. O seu filho, Manuel Martins Viana e sua esposa Maria do Saleiro de Barros, herdaram a Azenha Branca em 22 de abril de 1941. Em 10 de outubro de 1985, Maria do Saleiro (viúva), vendeu a azenha a Keith Murray Cummings, do Estados Unidas da América, onde casou com Maria da Purificação Tavares, médica e Professora na Faculdade de Medicina do Porto. As mascotes deste simpático casal, na casa, era um casal de ratinhos. Em 23 de novembro de 1990, Júlio Alves adquiriu a azenha, que mantém até hoje, novembro de 2020. Foi restaurada em fevereiro de 1992, mantendo-se a traça original e pintada de branco por exigência da Câmara Municipal de Esposende. Antes apenas tinha um pequeno logradouro de 50 ㎡, foi anexado mais cerca de 180 ㎡ de terreno com uma nascente de água, adquiridos ao Sr. Manuel Viana Caramalho e esposa, em 05 de fevereiro de 1991.

fotografia antiga, a preto e branco, com vista do alto, da ponte e azenha
Azenha Branca e Ponte do Sebastião. Livro Tecnologia Tradicional Portuguesa: Sistemas de Moagem

Em 02 de agosto de 1941 todas as moagens, fábricas, moinhos e azenhas (de centeio e milho) foram obrigadas a registarem-se na Comissão Reguladora das Moagens de Ramas, antes registadas na Inspeção Geral das Indústrias e Comércio Agrícolas (Dec. Lei nº 31452 de 02 de agosto de 1941). A Azenha Branca foi registada por Manuel Martins Viana, em 05 de maio de 1942.

Cheias

Além da de maio de 1868 que arrasou todas as azenhas e engenhos, exceto as do Minante devido à sua solidez de construção, houve a cheia de 1909 e a de 1914. A mais prolongada de todas, foi no inverno de 1935, 1936, durante quatro meses seguidos. As azenhas estiveram paradas. A moagem era feita nos moinhos dos ribeiros e nas azenhas da Quinta de Belinho. Houve também de 28 a 30 de dezembro de 1978 a maior cheia do século XX. Uma outra ocorreu em 07 de dezembro de 2000. Começou a chover em setembro e só em finais de abril de 2001 a água que cai do céu abrandou e deu lugar ao sol da primavera. A água esteve a 50 cm da janela da Casa da Azenha Branca e acima da pesqueira cerca de 70 cm. A ponte não caiu, vindo a cair a 21 de março de 2001, devido aos troncos depositados junto aos pilares. Nessa altura caíram dois pilares do lado do Castelo do Neiva. Esta última queda da ponte foi em 23 de dezembro de 2019, não pela força ou quantidade de água, mas sim pelos troncos de árvores acumulados, que vêm na corrente devido à falta de limpeza das margens do rio, já há muito tempo abandonadas.

ponte submersa por rio com caudal cheio e bastante corrente
Cheia do rio Neiva, janeiro de 2003, Júlio Alves
ponte submersa por rio com caudal cheio e bastante corrente
Cheia do rio Neiva, fevereiro de 2003, Júlio Alves
ponte submersa por rio com caudal cheio e bastante corrente
Cheia do rio Neiva, 2015, Júlio Alves
ponte submersa por rio com caudal cheio e bastante corrente
Cheia do rio Neiva, 2015, Júlio Alves
ponte com lajes caídas
Ponte caída, 21 de março 2001

Pontes

Até finais do século XIX os dois Concelhos eram ligados por uma ponte de género romana, a montante da Azenha da Carvalha e por onde os peregrinos de Santiago passavam, contornando o Monte do Castelo a poente pela estrada romana, também esta destruída por volta de 1999(?). A ponte ruiu durante uma das maiores cheias do Rio Neiva em maio de 1868 (?), provavelmente. Mais tarde ainda serviu de passagem, mas os seus tabuleiros eram de madeira. Ainda se podem ver os pilares da ponte por entre arbustos e amieiros.
Além da ponte da EN13, havia mais cinco pontes que uniam Antas a Castelo do Neiva: a do Grilo, a do Minante, a da Nova (destruída), a da Carvalha (destruída) e a do Sebastião (destruída parcialmente várias vezes).

ponte de pedra sobre rio calmo
Ponte do Sebastião, Júlio Alves
pessoas em cima de ponte de predra sobre o rio
Ponte do Sebastião, Júlio Alves
ciclistas a atravessar ponte de pedra sobre o rio
Prova de ciclismo com travessia da Ponte do Sebastião, Júlio Alves
ciclistas a atravessar ponte de pedra sobre o rio
Prova de ciclismo com travessia da Ponte do Sebastião, Júlio Alves
pilares de pedra envoltos por vegetação
Antiga ponte da Carvalha, pilares envolvidos por amieiros e arbustos, 2020, Júlio Alves
pilares de pedra envoltos por vegetação
Antiga ponte da Carvalha, pilares envolvidos por amieiros e arbustos, 2020, Júlio Alves

Pesqueira

Do outro lado da ponte do Sebastião, em Castelo do Neiva, encontra-se uma pesqueira, construção em pedra, onde funcionava, no seu interior, um engenho constituído por um eixo, quatro raios e na extremidade de cada raio existia uma cesta com o fundo em madeira. Como os peixes nadam contra a corrente, estes entravam pela abertura da parte de baixo da construção e os peixes entravam nas cestas e eram lançados para uma caleira em madeira e a pescaria caía num tanque cheio de água. O pescado mantinha-se vivo e o proprietário ou o moleiro escolhia os peixes maiores e devolvia ao rio os mais pequenos. Segundo o Sr. Manuel Dias Carneiro, o penúltimo moleiro (falecido em novembro de 2020), a pesca era diária e muito abundante, sobretudo de lampreia, nos primeiros três meses do ano, de truta, boga e barbo. Já Baldaque da Silva em 1887, se refere a este engenho de pesca, referindo que a pesca desde a foz do Neiva até à segunda açude era abundante. Antes da ponte ser feita, o moleiro usava o barco para pescar e transportar as pessoas para a outra margem e as taleigas de seriais e da farinha.

desenho técnico. planta da pesqueira
Planta da pesqueira de Moldes. Livro Rio Neiva – rodas d’Agua e agro-sistemas tradicionais
água a passar no interior da pesqueira
Interior da pesqueira de Moldes. Livro Rio Neiva – rodas d’Agua e agro-sistemas tradicionais
desenho técnico planta do engenho de pesca
Planta esquemática do engenho de pesca. Dr. Rui A. Faria Viana e Dr. Virgínio Sá
planta topográfica do rio com a localização da ponte, azenha e engenho de pesca
Planta topográfica para construção da ponte, assinalando o engenho de pesca. Dr. Rui A. Faria Viana e Dr. Virgínio Sá
desenho técnico
Planta de cobertura. Dr. Rui A. Faria Viana e Dr. Virgínio Sá
edifício de pedra junto ao rio
Engenho de Moldes. Júlio Alves
edifício de pedra junto ao rio
Engenho de Moldes. Júlio Alves

Em 1989 (?), a fábrica de resina, localizada junto à ponte sobre o rio Neiva, na EN13, fez uma descarga de resíduos tóxicos (propositado ou não) que destruiu a fauna e a flora do rio até à sua foz e as margens, quase por completo.

fotografia, com vista de cima do monte, do rio e da ponte
Vista do Monte do Castelo do Neiva. 1994, Júlio Alves
fotografia, com vista de cima do monte, do rio e da ponte
Vista do Monte do Castelo do Neiva. 1996, Júlio Alves
fotografia, com vista de cima do monte, do rio e da ponte
Vista do Monte do Castelo do Neiva. 1996, Júlio Alves

Reconstrução da ponte em 2020

O maior número de pilares e tabuleiros derrubados pelos troncos de árvores acumulados, foi em 23 de dezembro de 2019. Foi restaurada em novembro de 2020, com a responsabilidade da Câmara Municipal de Esposende, a obra foi adjudicada à Sociedade Construções Pedrosa e Barreto, Lda. pelo valor de 87.980,00€.

blocos de pedra tombados no meio de um rio
Ponte do Sebastião caída, julho 2020, Querubim Areias
obras: máquina e trabalhadores a erguer pilar de ponte de pedra no rio
Obras na ponte do Sebastião, Júlio Alves
obras: máquina e trabalhadores a erguer pilar de ponte de pedra no rio
Obras na ponte do Sebastião, Querubim Areias
obras: material de construção usado para alinhar as lajes da ponte
Obras na ponte do Sebastião, Querubim Areias
ponte de pedra sobre o rio
Ponte do Sebastião reconstruída, novembro 2020

Júlio Alves

Bibliografia:

  • Neiva, Adélio Torres, Paróquia de S. Paio de Antas, Esposende, 1999, S. Paio de Antas, Sua História e Suas Gentes, Companhia Editora do Minho.
  • Barreto, Rogério; Castro, Raimundo; Oliveira, José; Pereira, Manuel Delfim, 2013, Barroselas – Junta de Freguesia, Rio Neiva – rodas d’Agua e agro-sistemas tradicionais, Companhia Editora do Minho.
  • Câmara Municipal de Esposende, 1995(6), A Terra e o Homem, Anégia Editores.
  • Veiga de Oliveira, Erneste; Galhano, Fernando; Pereira, Benjamim, 1983, Tecnologia Tradicional Portuguesa: Sistemas de Moagem, Instituto Nacional de Investigação Científica, Centro de Estudos de Etnologia, Litografia Tejo, Lisboa.